Cultura – A dimensão psicológica e a mudança histórica e cultural

Culture – Psychological dimension in historical and cultural change

Subjetividade e constituição do sujeito em Vygotsky

Susana Inês Molon, Departamento de Psicologia do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil

Partindo do princípio de que o sujeito e a subjetividade emergem na obra de Vygotsky, a questão a fazer é como o sujeito e a subjetividade aparecem na construção teórica do autor.

Para a leitura subtextual será analisado dois conceitos fundamentais da obra de Vygotsky e que apresentam permanência nos seus escritos: a noção de consciência e a noção da relação constitutiva Eu-Outro. Essas duas questões estão presentes desde o primeiro instante de sua entrada na Psicologia até a interrupção de seu trabalho ocasionada por sua morte prematura. Esses conceitos atravessam uma década (1924 a 1934) da vida teórica de Vygotsky, porém apresentam alterações nos seus significados.

Pela análise desses dois conceitos será possível resgatar a teoria vygotskiana e revelar suas reflexões sobre a constituição do sujeito e da subjetividade que passam por momentos de superação.

 

A consciência como sistema de reflexos reversíveis

No texto "Os métodos de investigação reflexológicos e psicológicos" (1924,1926, 1996a) a consciência é entendida como um entrelaçamento de sistemas de reflexos, ou seja, a consciência enquanto um mecanismo que suporta um sistema de reflexos. Mas, a consciência não se confunde com o reflexo, não é um reflexo e nem um excitante, mas sim o mecanismo de transmissão entre sistemas de reflexos.

Vygotsky tentava sair do círculo reducionista das Psicologias objetivistas do comportamento (Reflexologia, Reactologia, pavlovismo), porém, sem cair na armadilha do subjetivismo e do idealismo.

Vygotsky já anunciava a origem social da consciência, ressaltando a importância da linguagem como constituinte da consciência. Vygotsky deixou claro que os fenômenos subjetivos não existem por si mesmos e nem afastados da dimensão espaço-temporal e de suas causas. Defendeu a unidade da psique e do comportamento.

Nesta discussão, Vygotsky apresentava sua concepção do eu. O eu se constrói na relação com o outro, em um sistema de reflexos reversíveis, em que a palavra desempenha a função de contato social, ao mesmo tempo em que é constituinte do comportamento social e da consciência.

A relação constitutiva Eu-Outro enquanto conhecimento do eu e do outro (eu alheio) e do autoconhecimento e reconhecimento do outro são vistos como mecanismos idênticos, isto é, temos consciência de nós porque temos dos demais, porque nós somos para nós o mesmo que os demais são para nós, nos reconhecemos quando somos outros para nós mesmos.

Nessa concepção, o sujeito não é reflexo, não é comportamento observável, nem reações não manifestadas e nem o inconsciente, mas o sujeito é uma conformação de um sistema de reflexos - a consciência -, na qual os estímulos sociais desempenham um papel importante na operacionalização do eu, já que o contato com os outros sujeitos permite o reconhecimento do outro e por meio disso, o auto-conhecimento.

A constituição do sujeito passa pelo reconhecimento do outro, mas fundamentalmente pelo autoconhecimento do eu, considerando que esses processos são idênticos, que acontecem pelo mesmo mecanismo, isto é, pelo mecanismo dos reflexos reversíveis.

 

A consciência como o problema e o objeto da psicologia, apresentando uma tríplice natureza: consciência, sentimento e vontade

Em "A consciência como problema da psicologia do comportamento" (1925, 1996b), a principal questão de Vygotsky era a afirmativa da consciência enquanto um problema da Psicologia. Defendeu a materialização da consciência, a necessidade de encontrar uma interpretação e um lugar adequado para a consciência e, com base nisso, buscar explicações para os problemas relacionados a ela.

Estabeleceu a diferenciação entre o comportamento animal e o comportamento humano, utilizando a citação de Marx sobre a analogia entre a aranha e o arquiteto. A partir daí, conceituou o comportamento do homem considerando três dimensões: a experiência histórica, a experiência social e a experiência duplicada.

Neste texto, Vygotsky apresentou o esboço do que iria caracterizar a sua teoria sócio-histórica dos processos psicológicos superiores, a gênese e natureza social da consciência.

Estava, inicialmente, restrito ao sistema de reflexos reversíveis na explicação do comportamento, porém percebeu as limitações da teoria dos reflexos e ressaltou a importância da linguagem como fonte constituinte do comportamento social e da consciência. Entendeu que a experiência determina a consciência e, ao mesmo tempo, reconheceu a capacidade que tem o homem de constituir-se em excitante de si mesmo, pelos seus atos.

Desta maneira, a consciência é construída no contato social, é originada social e historicamente, mas enquanto experiência duplicada - já que ela é a duplicação do mesmo, tal como acontece com o trabalho -, a consciência é, também, um contato social consigo mesmo, como pode ser observado na fala silenciosa e na fala interior.

Vygotsky referiu-se à consciência enquanto reflexividade, capacidade do homem de se desdobrar, de ser objeto de si mesmo, isto é, a consciência de estar consciente de ter consciência, em que a palavra possibilita esse desdobramento.

Como no texto anteriormente analisado, fez uso das mesmas citações e argumentações com relação à concepção do eu, e acrescentou que a vertente individual se constrói a partir da base social como um modelo da sociedade.

Enfatizou a dualidade da consciência, a idéia do duplo, confirmada na relação eu e outro na própria consciência, ou seja, a consciência como um contato consigo mesmo garantida no contato com os outros sujeitos

Sua concepção de homem afirmava que só existe o reconhecimento do eu no reconhecimento do outro. O outro determina o eu, ambos mediados socialmente.

Considerou que a dimensão da consciência apresenta uma tríplice natureza: consciência (pensamento), sentimento (afetos) e vontade (motivação). Isto é, a consciência dos pensamentos, a consciência dos sentimentos e a consciência da vontade; mas, essa tríplice natureza da consciência enfatizou o caráter reflexo do pensamento, do sentimento e da vontade. Todos eles são vistos como sistemas de reflexos, apontando assim o caráter secundário da consciência dos sentimentos, dos pensamentos e da vontade, nos quais a própria reação serve de excitante a uma reação nova, ou seja, são reflexos reversíveis.

Neste contexto, o sujeito é constituído através da experiência social, histórica e pelo desdobramento da consciência, que acontece através do desdobramento na consciência do eu e outro, no sujeito consciente.

O sujeito consciente estabelece relações com a experiência de outros sujeitos e na experiência com outros sujeitos pela intersubjetividade.

É importante enfatizar que a experiência social, para Vygotsky, já neste período, extrapola as interações sociais, isto é, o sujeito se apropria da experiência dos outros sujeitos não somente em condições de interação imediatas mas, também, por meio de intersubjetividades anônimas.

 

A consciência como sujeito da atividade

Na obra "O significado histórico da crise da psicologia; uma investigação metodológica" (1927, 1996c) a consciência foi compreendida como um sistema seletor, um tamis que filtra o mundo e o modifica de maneira que torna possível a atuação. Tratou a consciência como um tamis que filtra a realidade e a modifica, refletindo a realidade, sobre a realidade e sobre si mesma, ou seja, a consciência foi entendida como possibilidade de reflexão.

A característica essencial da consciência reside na complexidade da reflexão, no fato de que nem sempre resulta exato refletir, ou seja, pode haver alterações da realidade, que ultrapassam os limites do visível e da experiência imediata, exigindo a busca dos significados que não são observados diretamente.

A consciência psicológica tem o caráter seletivo assegurado pelos diversos limiares que impedem o caos, a desestruturação da consciência. A consciência e o cérebro são vistos como produtos e partes da natureza, mas partes que refletem e transformam a própria natureza.

O sujeito foi compreendido como um modelo da sociedade, pois nele se reflete a totalidade das relações sociais. Conhecer o sujeito significa conhecer o mundo inteiro em todas as suas conexões.

A consciência é a capacidade que o homem tem de refletir a própria atividade, isto é, a atividade é refletida no sujeito que toma consciência da própria atividade.

Em síntese, pode-se afirmar que a consciência é sujeito da atividade. Há um vínculo estreito na noção de consciência e de sujeito.

 

A consciência como um processo mediatizado pelo signo: é um "quase-social"

No movimento teórico de superação do pensamento reflexológico, Vygotsky elaborou a teoria sócio-histórica, entre o período de 1928 a 1932, passando a priorizar o estudo das funções psicológicas superiores ou, melhor dizendo, buscou a gênese e a natureza dos processos psicológicos.

Na obra Historia del desarrollo de las funciones psíquicas superiores (1931, 1960, 1987), Vygotsky estudou detalhadamente, a estrutura e a gênese das funções psicológicas superiores, desenvolvendo para isso um método de investigação e análise.

Definiu as funções psicológicas superiores pela inter-relação com as funções psicológicas inferiores, mas sendo genética, estrutural e funcionalmente diferentes.

As funções psicológicas superiores não resultam natural e espontaneamente das funções psicológicas inferiores elas têm propriedades e qualidades particulares específicas.

A especificidade das funções psicológicas superiores é que são mediadas. Caracterizam-se por serem operações indiretas, que necessitam da presença de um signo mediador, sendo a linguagem o signo principal.

Todas as funções psicológicas superiores originam-se das relações reais entre indivíduos humanos, com isso não são inventadas, nem aparecem de forma repentina e não são funções a priori, ou seja, não existem independentemente das experiências. São funções que apresentam uma natureza histórica e são de origem sócio-cultural, são mediadas.

Para compreender a relação entre as funções psicológicas superiores e funções psicológicas inferiores, Vygotsky utilizou uma expressão da dialética hegeliana, a noção de superação. Hegel afirma o duplo significado da expressão alemã superar, que quer dizer eliminar, negar e também conservar. Desta forma, as funções psicológicas inferiores não são liqüidadas no sentido de deixar de existir, mas sim incluídas, são transformadas e conservadas nas funções psicológicas superiores, como uma dimensão oculta. O nível inferior não acaba quando aparece o novo, mas é superado por este, é negado dialeticamente pelo novo, passando a existir no novo.

Na dinâmica das funções psicológicas superiores não há predomínio exclusivo de uma função, todas estão inter-relacionadas, no entanto, em determinados momentos, uma função emerge mais fortemente, estabelecendo uma hierarquia entre as funções. Mas essa hierarquia é circunstancial.

O sentimento, o pensamento e a vontade estão relacionados assim como todas as funções psicológicas, ou seja, não existe uma função isolada, nem um pensamento puro e nem um afeto sem alteração mas sim inter-conexões funcionais permanentes na consciência, nas quais os sentimentos quando conscientes são atravessados pelos pensamentos, e os pensamentos são permeados pelos sentimentos, sendo que esses acontecem a partir dos e nos processos volitivos. A função psicológica que potencializa as demais é a vontade.

A ênfase em uma ou outra função psicológica é orientada pela vontade, que se constitui na atividade psicológica construtiva, no mecanismo de potencialização e de realização da condição do ser humano; "o mecanismo de partida e de execução, a vontade, é o produto de relações sociais" (Vygotsky, 1986, p. 42).

Todo o processo psicológico é volitivo, sendo que a vontade é inicialmente social, interpsicológica e posteriormente intrapsicológica.

Nesta perspectiva o que determina o desenvolvimento das funções psicológicas superiores não é fundamentalmente a mudança biológica - a evolução biológica das espécies animais -, mas primordialmente a utilização dos instrumentos. Na ontogênese a questão essencial são os instrumentos, pois eles fazem a mediação social.

É importante sinalizar que Vygotsky ressaltou o papel ativo do homem e da cultura: o homem constitui cultura ao mesmo tempo em que é por ela constituído, entretanto, o desenvolvimento cultural humano encontra sustentação nos processos biológicos, no crescimento e na maturação orgânica, formando um processo complexo, em que o biológico e o cultural constituem-se mutuamente no desenvolvimento humano.

Vygotsky trabalhou com o pressuposto de que o desenvolvimento biológico e o desenvolvimento cultural formam uma unidade, na qual o processo de desenvolvimento psicológico é determinado tanto pelo nível de desenvolvimento orgânico - biológico - quanto pelo nível de utilização de instrumentos e signos - cultural.

Neste sentido, o sentimento, o pensamento e a vontade que formam a tríplice natureza social da consciência são historicamente constituídos no contexto ideológico, psicológico e cultural considerando o biologicamente constituído.

No processo de constituição do sujeito, as atividades humanas são operacionalizadas ao longo do desenvolvimento humano pelos signos, que são meios de comunicações e meios de conexões das funções psicológicas superiores, presentes em todo o processo de constituição do sujeito.

Neste processo, o sujeito controla a sua conduta através da linguagem que são signos submetidos às normas sociais e às regras convencionais e não a linguagem baseada no domínio arbitrário e autônomo do signo.

As funções psicológicas superiores são mediadas, isto é, nascem e vivem através da mediação dos instrumentos psicológicos, dos signos, sendo assim, é "quase social".

O processo de conversão de algo interpsicológico em algo intrapsicológico não acontece por mera reprodução mas por reconstituição de todo o processo envolvido, no qual as funções psicológicas permanecem sendo "quase sociais". Nas relações sociais algumas atividades interpsicológicas são convertidas em atividades intrapsicológicas, pois nem tudo que é social é interpsicológico e nem tudo que é interpsicológico é intrapsicológico. A dimensão intrapsicológica acontece a partir da conversão de signo interpsicológico em signo intrapsicológico, acontece pela mediação dos signos.

A noção de conversão parece ser mais fidedigna para legitimar o processo que Vygotsky elaborou, pois pressupõe o processo de superação e de mediação não estando a questão na internalização de algo de fora para dentro, mas na conversão de algo nascido no social que se torna constituinte do sujeito permanecendo "quase social" e continua constituindo o social pelo sujeito.

A conversão é o processo de constituição do sujeito no campo da intersubjetividade.

Compreendido na totalidade da teoria vygotskiana, tal processo denota o movimento de transformação, no qual o transformado passa a ser algo diferente sem excluir o que foi, e esse movimento na sua gênese parte do social para o sujeito.

A complexidade das dimensões intrapsicológicas e interpsicológicas traduzida no movimento, na transformação, na conversão e na reconstituição constante não possibilita estabelecer relações dicotômicas e indiferenciadas entre o interno e o externo, mesmo porque fazem parte de uma relação dialética que os diferencia e os aproxima.

 

A consciência como estruturação dos sistemas psicológicos

O conceito fundamental na teoria vygotskiana é o conceito de mediação. Vygotsky expressou isso claramente no texto "O problema da consciência" (1933, 1968, 1996d): "O fato central de nossa psicologia é o fato da ação mediada. (1996d, p. 188)

Vygotsky, afirmando que o fato central da ciência psicológica é o fato da mediação, desvelou que o objeto da Psicologia e da Psicologia Social era o fenômeno psicológico, mas este só existe pelas mediações, isto é, o fenômeno psicológico é mediado e não imediato.

A mediação como pressuposto da relação Eu-Outro, da intersubjetividade, é a grande contribuição de Vygotsky e caracteriza sua importância na perspectiva sócio-histórica.

Porém, garimpar a obra acessível de Vygotsky procurando a definição do conceito de mediação é uma tarefa bastante difícil, mesmo porque não é um conceito, é um pressuposto norteador de todo o seu arcabouço teórico-metodológico. É um pressuposto que se objetiva no conceito de conversão, superação, relação constitutiva Eu-Outro, intersubjetividade, subjetividade, etc.

A mediação é processo, não é o ato em que alguma coisa se interpõe; mediação não está entre dois termos que estabelece uma relação. É a própria relação.

A mediação pelos signos, as diferentes formas de semiotização, possibilita e sustenta a relação social, pois é um processo de significação que permite a comunicação entre as pessoas e a passagem da totalidade à partes e vice-versa.

A mediação não é a presença física do outro, não é a corporeidade do outro que estabelece a relação mediatizada, mas ela ocorre através dos signos, da palavra, da semiótica, dos instrumentos de mediação. A presença corpórea do outro não garante a mediação.

Entretanto, Vygotsky reconheceu que durante certo período de tempo na sua produção teórica considerou o signo apenas como estímulo auxiliar e como veículo para o controle do comportamento, não priorizando o significado.

Há uma superação no pensamento de Vygotsky, qual seja, do signo como instrumento auxiliar (algo que está no lugar de outro algo), do signo como veículo (alguma coisa vazia que pode veicular alguma coisa), isto é, da visão instrumentalista da palavra à visão discursiva da linguagem, ao significado e sentido das palavras, à palavra como microcosmo da consciência.

Vygotsky conformou sua teoria dentro do campo da significação, somente nos últimos trabalhos, principalmente na obra Pensamento e linguagem (1934, 1993) e no texto "O problema da consciência" (1933, 1968, 1996d).

A consciência continua sendo entendida como um sistema de integração dos diferentes sistemas psicológicos, mas descentralizou a consciência das funções e das transformações das funções priorizando as alterações das inter-conexões e das infinitas possibilidades de conexões e de manifestação das mesmas, ou seja, está além dos nexos das funções entre si, realiza e expressa as conexões dos sistemas entre si.

Na dinâmica da consciência acontece um novo modo de operar da consciência, no qual tanto os sistemas psicológicos quanto a consciência se modificam mutuamente.

Vygotsky complexificou a dimensão da consciência, na qual encontra-se o psicológico consciente e o psicológico inconsciente, ambos operacionalizados pelas mediações semióticas, na relação dialética da dimensão interpsicológica e da dimensão intrapsicológica no campo da intersubjetividade e da intersubjetividade anônima.

Na relação entre o pensamento e a palavra, o significado faz o elo entre os dois, dá vida aos dois por meio de um processo permanente de transformações, no qual um depende do outro.

Vygotsky, indagando sobre o papel do significado na vida da consciência, afirmou que conhecer o significado implicava conhecer o singular como universal. Com isso, o significado da palavra é diferente do pensamento expresso na palavra e é diferente do significado do objeto.

Neste sentido, o sujeito estabelece a relação pela significação, já que esta transita nas diferentes dimensões do sujeito: ela atravessa o pensar, o falar, o sentir, o criar, o desejar, o agir, etc.

A significação se constitui em termos de sujeitos e não em termos de significante e referente, é um processo que tem como suporte o signo como materialidade e visibilidade.

Mas na significação a relação acontece entre sujeitos, sujeitos em intersubjetividade pelas mediações semióticas em um mundo dos sujeitos, sujeitos não individuais e nem abstratos, mas sujeitos constituídos histórica e socialmente.

No processo de significação encontra-se uma dupla referência semântica: o significado e o sentido. O significado aparece como sendo próprio do signo, enquanto que o sentido é produto e resultado do significado, porém não é fixado pelo signo sendo mais amplo que o significado.

O sentido predomina sobre o significado, pois é um todo complexo que apresenta diversas zonas de estabilidade desiguais, nas quais a mais estável é o significado.

O significado de uma palavra é convencional e dicionarizado, portanto é mais estável e preciso, enquanto que o sentido de uma palavra pode ser modificado de acordo com o contexto em que aparece, conseqüentemente, diferentes contextos apresentam diferentes sentidos para uma palavra, o sentido não é pessoal enquanto individual mas é constituído na dinâmica dialógica.

O sentido de uma palavra modifica-se tanto dependendo das situações e das pessoas que o atribuem que é considerado quase ilimitado. Desta maneira, as palavras e os sentidos apresentam um grau elevado de independência entre si, fato que não ocorre entre palavra e significado.

Embora o significado seja próprio do signo ele não se confunde com o significante, são constituições diferenciadas. O significado não se restringe ao objeto, nem ao signo, nem à palavra e nem ao pensamento, mas o significado pertence à consciência; não é ele que determina a configuração da consciência e nem o sentido, mas a presença do significado e do sentido impulsiona novas conexões e novas atividades da consciência, em uma dimensão semiótica.

A consciência é um sistema integrado em uma processualidade permanente, em que todos os diferentes componentes alteram sua composição ao mesmo tempo em que ela também determina a estrutura do significado e a atividade formativa do sentido, administrando sua dimensão semântica e, primordialmente, entra em contato com outras consciências.

Na discussão da significação o significado é o aspecto que torna possível a relação social, e são significados produzidos nas relações sociais, em determinadas condições históricas. Vygotsky colocou a questão da tensão permanente, na qual a consciência era, ao mesmo tempo, tensionada pelos produtos históricos universais e pelas singularidades dos sujeitos.

Uma relação entre o singular e o universal, na qual o singular expressa o universal, entendendo o singular enquanto determinação histórica, cultural e ideológica.

A consciência é semioticamente constituída e semioticamente mediada, sendo os signos sociais e ideológicos, a consciência é matizada ideologicamente.

Para analisar a consciência o único método apropriado é a análise semiótica:

"A análise semiótica é o único método adequado para estudar a estrutura do sistema e o conteúdo da consciência."(Vygotsky, 1996d, p. 188)

O conteúdo semiótico proporciona a compreensão da estrutura e conteúdo da consciência, que é um sistema estruturado, organizado por infinita conexões entre as suas atividades, algumas das quais são estáveis mas não constantes; essas conexões são potencializadas pelas mediações semióticas.

Considerando-se que os signos modificam as relações entre as funções psicológicas e os sistemas psicológicos, torna-se necessário conhecer as transformações que acontecem na estrutura de interconexões da consciência, ou seja, sua lógica estruturante.

Só é possível estudar a consciência pelos conteúdos que a constituem e por intermédio de sua lógica instituidora, constituída historicamente. Vygotsky pontuou uma relação em três dimensões, quais sejam, entre a estrutura, a lógica e os conteúdos da consciência; sendo que os conteúdos implicam na estrutura e na lógica, mas é pelo modo lógico estrutural de operar com os conteúdos que a consciência revela seu modo universalizante de proceder.

Os conteúdo da consciência e sua lógica estrutural são inseparáveis. O acesso à consciência dá-se quando ela se objetiva, isto é, quando está constituída para o sujeito. As objetivações da consciência ocorrem por intermédio da linguagem e do trabalho.

A objetivação da consciência pelo trabalho é um pressuposto defendido por Vygotsky, no entanto, ele apreendeu a determinação do trabalho através da significação, considerando que a técnica e o instrumento de trabalho acontecem na cultura, no campo das significações compartilhadas.

O entendimento da consciência passa pela constituição cultural, qual seja, a cultura como um campo compartilhado de significações. Significados e sentidos compartilhados no campo cultural são sustentados historicamente.

Desta forma, a linguagem é a referência essencial, a partir da qual todas as formas de atividade inseridas em uma sociedade determinada pelo trabalho, pelo modo de produção, são explicativas da cultura. A cultura é compreendida pelas significações, porém em um mundo demarcado pelo trabalho, onde a linguagem e o pensamento refletem uma determinada realidade social e a linguagem possibilita resgatar o desenvolvimento histórico da consciência.

Ressaltou a função e o papel essencial da linguagem na consciência humana, através da mediação da linguagem e da instrumentalidade semiótica, pois a linguagem tanto faz a mediação dos processos, funções e sistemas psicológicos quanto atua como função psicológica superior. A linguagem é constitutiva e constituidora do sujeito.

O sujeito é constituído pelas significações culturais, porém a significação é a própria ação, ela não existe em si, mas a partir do momento em que os sujeitos entram em relação e passam a significar, ou seja, só existe significação quando significa para o sujeito e o sujeito penetra no mundo das significações quando é reconhecido pelo outro. A relação do sujeito com o outro sujeito é mediada. Dois sujeitos só entram em relação por um terceiro elemento, que é o elemento semiótico. E mais, a relação social não é composta apenas de dois elementos, a relação social é uma relação dialética entre eu e o outro, ou seja, toda relação implica o terceiro - tríade. O elemento semiótico que é constituinte e constituído da relação é, portanto, mediação.

O eu não é sujeito, é constituído sujeito em uma relação constitutiva Eu-Outro no próprio sujeito, essa relação é imprescindível para a constituição do sujeito, já que para se constituir precisa ser o outro de si mesmo. É necessário o reconhecimento do outro enquanto eu, alheio nas relações sociais, e o reconhecimento do outro enquanto eu próprio, na conversão das relações interpsicológicas em relações intrapsicológicas, mas nesta conversão, que não é mera reprodução mas reconstituição de todo o processo envolvido, há o reconhecimento do eu alheio e do eu próprio e, também, o conhecimento enquanto autoconhecimento e o conhecimento do outro enquanto diferente de mim.

Porém, o conhecimento não é só reconhecimento, o ato de conhecer pressupõe a experiência e a imaginação, o mundo do imaginário e do possível diferente do mundo real mas que está estreitamente relacionado com a realidade social.

Na obra de Vygotsky a análise do sujeito não se limita a ordem do biológico e nem se localiza na ordem do abstrato, mas sim ao sujeito que é constituído e é constituinte de relações sociais. Neste sentido, o homem sintetiza o conjunto das relações sociais e as constrói.

Pensar o homem como um agregado de relações sociais implica considerar o sujeito em uma perspectiva da polissemia, pensar na dinâmica, na tensão, na dialética, na estabilidade instável, na semelhança diferente. A conversão das relações sociais no sujeito social se faz por meio da diferenciação: o lugar de onde o sujeito fala, olha, sente, faz, etc. é sempre diferente e partilhado. Essa diferença acontece na linguagem, em um processo semiótico em que a linguagem é polissêmica.

Neste sentido, o sujeito não é um mero signo, ele exige o reconhecimento do outro para se constituir enquanto sujeito em um processo de relação dialética. Ele é um ser significante, é um ser que tem o que dizer, fazer, pensar, sentir, tem consciência do que está acontecendo, reflete todos os eventos da vida humana.

O sujeito constituído pelas conexões, relações inter-funcionais, interconexões funcionais que acontecem na consciência e que conferem as diferenças entre os sujeitos. Não é a presença das funções psicológicas superiores que determinam a especificidade do sujeito, mas as interconexões que se realizam na consciência pelas mediações semióticas que manifestam diferentes dimensões do sujeito, entre elas: a afetividade, o inconsciente, a cognição, o semiótico, o simbólico, a vontade, a estética, a imaginação, e etc.

O sujeito constituído e constituinte nas e pelas relações sociais, é o sujeito que se relaciona na e pela linguagem no campo das intersubjetividades.

O sujeito é uma unidade múltipla, que se realiza na relação Eu-Outro, sendo constituído e constituinte do processo sócio-histórico e a subjetividade é a interface desse processo.

Nesta perspectiva, a subjetividade não pode ser confundida nem com os processos intrapsicológicos nem com os processos interpsicológicos, mas é através dela e nela que se processa a dialética da relação interpsicológica e intrapsicológica.

A subjetividade manifesta-se, revela-se, converte-se, materializa-se e objetiva-se no sujeito. Ela é processo que não se cristaliza, não se torna condição nem estado estático e nem existe como algo em si, abstrato e imutável. É permanentemente constituinte e constituída. Está na interface do psicológico e das relações sociais.

 

 

Referências bibliográficas

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VYGOTSKY, Lev S. Teoria e método em psicologia. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

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